sexta-feira, 24 de abril de 2026

PACTO PARA A SAÚDE - POSIÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DAS UNIDADES DE CUIDADOS NA COMUNIDADE (AUCC)

Um Pacto para a Saúde centrado na comunidade e na proximidade

A recente referência de Sua Excelência o Presidente da República, Dr. António José Seguro, à necessidade de um Pacto para a Saúde recoloca no centro do debate nacional uma questão essencial: será possível garantir estabilidade e continuidade estratégica ao sistema de saúde português num contexto de envelhecimento demográfico, crescente complexidade social e elevada pressão sobre os profissionais?

A Associação das Unidades de Cuidados na Comunidade (AUCC) entende que a resposta a esta questão exige reflexão séria e compromisso político efetivo. Ao longo das últimas décadas, o sistema de saúde tem sido sujeito a ciclos sucessivos de reformas avulsas, frequentemente bem‑intencionadas, mas marcadas pela instabilidade, pela descontinuidade e pela ausência de consolidação de políticas estruturantes. A saúde comunitária não tem sido exceção.

As Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC), enquanto unidades funcionais dos Cuidados de Saúde Primários, com intervenção dirigida à comunidade, ao domicílio e às populações mais vulneráveis, têm enfrentado limitações estruturais que não se resolvem com medidas isoladas. Exigem visão estratégica, estabilidade organizacional e enquadramento legal sólido.

Para a AUCC, qualquer pacto que se pretenda duradouro deve reconhecer o papel determinante dos cuidados de proximidade.

As UCC são unidades que prestam cuidados de proximidade à população da comunidade da sua área de abrangência, incluindo cidadãos inscritos em várias USF e UCSP, garantindo:

  • Longitudinalidade dos cuidados, através do acompanhamento contínuo de pessoas e famílias ao longo do tempo, atendendo às suas dimensões clínica, social e comunitária.
  • Interdisciplinaridade, assegurada por equipas multiprofissionais com competências complementares.
  • Resposta comunitária integrada, pela capacidade de criar e gerir sinergias com outras unidades dos Cuidados de Saúde Primários, com os cuidados hospitalares e com a rede social, essencial para a gestão da doença crónica, da fragilidade, da dependência, da saúde mental, do isolamento social e da promoção da saúde.
  • Intervenção domiciliária estruturada, fundamental para garantir equidade no acesso aos cuidados às pessoas com limitações de mobilidade ou em situação de maior vulnerabilidade.

 

Neste contexto, a AUCC tem defendido de forma consistente, que o regime das UCC deve ser consagrado em Decreto-Lei, e não apenas em despacho governamental, como forma de garantir estabilidade legal, previsibilidade organizacional e valorização efetiva destas equipas no Serviço Nacional de Saúde


Os desafios estruturais que um pacto deve enfrentar

 

Estabilidade organizacional e continuidade estratégica

A ausência de políticas plurianuais compromete o planeamento de recursos humanos e a consolidação de modelos de intervenção comunitária. Um Pacto para a Saúde deve prever objetivos claros, metas mensuráveis e mecanismos de monitorização independentes.

Carreiras e motivação dos profissionais

As UCC necessitam de equipas completas, carreiras claras, acesso formação contínua e reconhecimento do impacto social e clínico do seu trabalho. Sem profissionais valorizados e estáveis, não é possível garantir cuidados de proximidade eficazes.

Integração real dos cuidados

A integração não se concretiza apenas por via administrativa ou estrutural. Tem de ser clínica, social e comunitária, reconhecendo as UCC como elementos centrais na articulação dos percursos de cuidados e na gestão da complexidade.

Envolvimento das autarquias e das redes locais

Os determinantes sociais da saúde — habitação, transportes, ambiente, literacia, envelhecimento ativo — estão no cerne da intervenção comunitária. As autarquias e as redes sociais locais devem ser parceiras estratégicas deste pacto.

Equidade no acesso e proteção financeira das famílias

Um Pacto para a Saúde deve comprometer o país com a redução progressiva da despesa direta suportada pelos cidadãos, reforçando as respostas comunitárias como instrumento de prevenção da doença, redução de internamentos evitáveis e promoção da autonomia.

 

O contributo da AUCC para este pacto

A AUCC dispõe de conhecimento acumulado, experiência concreta no terreno e uma rede nacional de profissionais profundamente comprometidos com a melhoria da saúde das populações.
Manifestamos total disponibilidade para contribuir através de:

·       Participação ativa nos grupos de trabalho estratégicos.

  • Elaboração de propostas técnicas sobre o modelo organizativo e legal das UCC.
  • Articulação com autarquias, instituições sociais e comunidade científica.
  • Sistematização de boas práticas e produção de evidência em cuidados de proximidade.
  • Promoção de investigação aplicada e avaliação de impacto.

Acreditamos que não haverá pacto sólido nem sustentável sem a inclusão explícita dos cuidados de proximidade e sem o reconhecimento das UCC como estrutura essencial do SNS.

 

Do consenso à ação

Um verdadeiro Pacto para a Saúde deve ser capaz de resistir aos ciclos políticos, afastando-se da lógica de curto prazo e afirmando-se como prioridade nacional permanente, sustentada em evidência científica, visão comunitária e responsabilidade intersectorial.

A AUCC reafirma o seu compromisso construtivo para colaborar em todas as fases deste processo, convicta de que só com proximidade, continuidade e justiça social será possível construir um SNS capaz de responder às necessidades presentes e futuras.

Porque a saúde acontece onde as pessoas vivem, trabalham, estudam e envelhecem.
E é aí que as UCC fazem a diferença todos os dias.

 

A Direção da AUCC

José Lima – Presidente